O extravasar do corpo é um modo de alívio, deve ter escuta atenta, a sinceridade nos faz humanos, e há coisas, as quais devemos procurar.
Sísifo seguia seu ciclo.
Prometeu, sua sentença.
Um empurrava a pedra, de costas contra a esperança.
O outro, acorrentado, pagava por dar luz.
Ambos sabiam: existem grilhões que só se rompem por dentro.
O Choro como Sinal
O choro é a alma se manifestando no corpo.
Olha com mais calma aqui — há energia em fruição acumulada.
Chorar tem essa característica de apontar o tema.
É o corpo abrindo frestas para o que já não cabe.
Vamos pensar em uma lágrima.
Quando estamos em êxtase, tudo em nós vibra —
há muito movimento, um transbordamento da alma em festa.
Mas pense no choro silencioso.
Quando estamos ausentes de nós mesmos,
quando flutuamos distantes, quase fora da vida e somos resgatados ao agora pelo toque da lagima na face, seu calor que se altera no traço produzido pelo trajeto e o frescor logo após sua passagem, aquele algo que nos toca.
É o corpo dizendo:
“Ei, ainda estou aqui.”
Como se, ao passar, ela limpasse não só os olhos,
mas também o que os olhos não sabem nomear muito bem naquele instante.
E há histórias que não passam.
Elas nos perseguem, como se estivessem inscritas na própria respiração do mundo.
Hoje quero contar-te sobre dois homens — ou talvez dois destinos — que conheci não nos livros, mas nos intervalos do meu próprio silêncio: Sísifo e Prometeu.
Sísifo foi rei.
Mas não um rei como os outros.
Astuto, irreverente, desafiou os deuses com inteligência demais para o gosto do Olimpo.
Enganou a Morte. E por isso, foi condenado.
Sua sentença?
Empurrar uma pedra morro acima. Sempre.

Quando quase alcança o cume, a pedra rola de volta. Sempre.
E ele recomeça.
E recomeça.
E recomeça.
Prometeu, por sua vez, era titã.
E foi ele quem olhou para os humanos — frágeis, frios, tateando a escuridão — e decidiu roubar o fogo dos deuses.
Para nos dar calor. Técnica. Sonho.
Por esse gesto, foi acorrentado a uma rocha.

Todos os dias, uma águia devora seu fígado.
À noite, ele se regenera.
No dia seguinte, a dor recomeça.
Sísifo carrega o peso da repetição.
Prometeu, a dor da lucidez.
Alguma tolice em se provocar a ira de um deus? Haveria espaço para algum arrependimento após?
Com toda licença poética — é no abismo do castigo que a lucidez do mito cintila.”
🜁 Sísifo – o rebelde do eterno esforço
A pedra é minha companhia. Não me responde, mas me conhece. Não me mata, mas me revela.
Sim, enganei os deuses — e tornaria a fazê-lo.
Não por vaidade, mas por gosto de mover o que julgam imóvel.
Arrependimento?
Talvez, no começo, quando meus músculos gritavam.
Hoje… aprendi a escutar o som da pedra rolando.
Ela canta uma canção que só os condenados compreendem.
🜂 Prometeu – o mártir do gesto de luz
Sangro todos os dias por amor ao homem.
A dor não me cala — me funda.
Tolice? Não.
Foi escolha.
Roubei o fogo porque não suportava vê-los tateando na escuridão.
Se isso é desafio aos deuses… que me acorrentem à própria criação.
Cada grito meu é chama.
Cada noite de regeneração, um novo amanhecer em quem crê.
Arrependimento?
Apenas por não ter roubado mais.
Fernando
— Me digam… por que choramos pelos olhos?
Por que é no rosto que se revela o que a alma não suporta? Será o choro um grito mudo? Um espurgo que toca antes de falar?
Sísifo
— O choro é como minha pedra, Fernando.
Sobe do fundo.
É peso que não se segura por muito tempo.
Quando o corpo não pode mais conter o que gira por dentro, a lágrima encontra sua queda.
Ela rola, como minha pedra.
E talvez, por um segundo, nos alivie.
Prometeu
— O choro é fogo líquido.
É o que resta da centelha quando não se pode mais incendiar por fora.
Os olhos choram porque são janelas.
E quando não sai pela boca — ela procura saída onde há luz.
Chorar é ver com mais verdade.
A lágrima não é fraqueza.
É excesso.
É presença.
É o espírito tocando o mundo pela carne.
Fernando
— Então… quando choramos, tocamos?
Sísifo
— Tocamos o fundo.
Ou ele nos toca.
Prometeu
— E nesse toque, se tornam mais humanos.
Pois é na lágrima que a alma se permite ser corpo.
E no corpo que a alma encontra o que é real.
Fernando
— Mas por que os olhos, e não os pés? Por que não as mãos?
É na face que se escolhe o alívio?
Sísifo
— Porque o rosto é onde se encontra o outro.
É onde o humano se revela.
A lágrima escorre para que alguém a veja.
Prometeu
— Porque o olhar é onde mora a linguagem antes da palavra.
E às vezes, a alma grita… mas só os olhos conseguem traduzir.
Fernando
— E seria o choro um extravaso… espiritual?
Sísifo
— É. Um desbordamento.
Do que já não cabe.
Prometeu
— E também um batismo.
Cada lágrima lava.
Cada choro cura uma ferida que o corpo ainda não sabia que tinha.
Fernando
— Então o choro é a travessia?
Ambos
— Sempre.
Afrontar um deus é tolice, dizem os prudentes.
Mas os mitos não foram feitos para os prudentes.
Sísifo desafia o limite da repetição.
Prometeu desafia a injustiça do poder.
Ambos encarnam a tragédia do espírito livre —
aquele que sabe que nascer humano é estar condenado a desejar o infinito mesmo com os pés cravados no chão.
Sísifo me ensinou que há dignidade no gesto que insiste, mesmo quando o mundo parece inútil.
Que a vida, às vezes, é empurrar uma pedra que não nos obedece — mas que ainda assim merece ser empurrada.
Prometeu me ensinou que amar a humanidade tem custo.
Que nem todo castigo é fracasso — às vezes, é o preço de ser inteiro.
E no meio de tudo isso…
há o choro.
Choramos, sim.
Porque há dias em que a pedra é demais.
Há noites em que o fogo nos queima por dentro.
Mas também há o momento em que a lágrima desce… e, como pedra rolando ou chama tremulando, ela nos revela.
Lembras daquela lágrima silenciosa?
Aquela que não grita, que apenas escorre — discreta, íntima — e toca o rosto como quem acorda do esquecimento?
O calor que altera o desenho da pele — que muda o traço, marca o percurso, inscreve no rosto o rastro da emoção.
Ela não vem só da tristeza das angústias apenas — mas de tudo aquilo que nos ultrapassa.
E há um código, uma escrita, não em palavras. Em um gesto muito mais elevado — onde a própria euforia sente inveja.
Ali no transe, reunido em si, pulsa um: consegui, sim, eu, eu consegui!
Ah, esse choro… Não precisa som na conquista. Vale a semântica do suspiro molhado. Aqui se faz careta, soluça, baba, chora mesmo… E ao fim, sorri. O riso de vitória.
Busque a todo custo a sua lágrima da conquista, e saiba apreciar em silêncio. Só tu com tu mesmo…
Aqui a alma resiste.
Resiste em permanecer, por se mostrar por completa. E ali, no toque sutil, ela nos diz:
Só há um agora, este é o instante real.
E é nessa tensão — entre o que escorre e o que segura — que também habitamos.
A lágrima, em seu gesto miúdo, é presença súbita.
Seja a imanência do seu Ser!
Porque no fundo da lágrima, há o princípio da chama.
E na repetição da pedra, a chance de um novo passo.
Segue. Chora. Mas não esquece: estás vivo.
E isso, às vezes, basta

As histórias de Sísifo e Prometeu vem da rica tapeçaria da mitologia grega, um universo simbólico criado para explicar as grandezas e misérias da existência humana — autores como Homero, Ésquilo e em análises filosóficas como “O Mito de Sísifo” de Albert Camus.